quarta-feira, 22 de abril de 2009

Moradores da Fazenda Tapera, Mansidão - BA

Os abaixo assinados da fazenda Tapera, município de Mansidão - BA, a margem direita do rio Preto, encaminharam ao senhor presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e o Ministro da Justiça Tarso Genro.

1. Os abaixo assinados vieram retratar as suas condições de vida que ao longo dos três séculos e meio essas populações foram largadas a sua própria sorte nunca tiveram o apoio do Estado, da Política Municipal, Estadual e Federal. O poder judiciário não conhece a realidade dessa população, especialmente os indígenas e negros.

2. É uma alerta a causa da crise mundial, que essa população ao longo dos séculos pagou a conta dos privilégios dos atores que exercem os comandos de governo, do capitalismo selvagem. Sem investimentos sociais e com uma estrutura de corrupção, desagregam o tecido social e provocam a existência dos moradores de rua e aqueles que vivem sem a proteção das leis, sem a garantia dos direitos humanos e civis de morar, de estudar, de se qualificar, da conquista da cidadania, do extrato, de qualificações por excelência.

3. O projeto de transposição do rio São Francisco, velho Chico, cantado em prosa e verso pelos compositores, pelos poetas de cordel e os artistas são de suma importância para a vida ribeirinha e da integração e desenvolvimento dessa população. No entanto, o projeto que é importante não tem a preocupação de apoio a esses moradores, que na maioria sofre a pratica de grilagem das terras. Prova inconteste os projetos originados pela antiga SUDENE, que receberam verbas para desenvolvimento, todos faliram e nenhum deles ou quase nenhum foi executado. A BR 020, do município de Riachão das Neves e Mansidão - BA a Picos - PI, projetada em 1956 por JK, não teve até hoje atenção do Poder Público. Nem das bancadas nordestinas no congresso, não há o interesse pela conclusão dessa obra.

41 pessoas assinaram essa solicitação e acrescentamos que o poder judiciário leia a carta de Uberaba-MG que foi editado pelo o congresso afro-brasileiro de 7 a 9 de setembro de 1979, o encontro de Ribeirão Preto-SP de 23 a 25 de novembro de 1979 ("O negro sob a visão política do estadista da República dos Palmares no Brasil de hoje"), com o discurso do Senado Itamar Franco em março de 1980 e mais a obra do Doutor, Professor, Advogado, Cientista, Investigador, Pesquisador, Geógrafo, Milton Almeida Santos ganhador do titulo de ABMS, que equivale ao Nobel de geografia e mais de 20 títulos de honoris causa. Juntos é uma proposta política para o Brasil, para o continente americano e humanidade, agregando toda a contribuição que a vida nos levou e de mãos dadas todos homens e mulheres da província Planeta Terra podemos construir uma nova ordem política, jurídica, de bem estar social e humano.

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sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Um apelo à Humanidade!...

O blog onegronobrasil1980.blogspot.com apresenta o trabalho realizado pela Escola Municipal Professor Milton Santos situada em Valéria-Salvador Bahia ao Brasil e ao Mundo. Esse texto representa a interação entre o trabalho realizado por Milton Santos e os alunos de população carente desta escola, desde o jardim de infância até o ensino fundamental, sendo assim uma provocação ao mundo acadêmico e científico. Uma louvável atitude desta escola! Isto é uma convocação às Nações Unidas, aos países, às Universidades aonde Milton Santos contribuiu com seu trabalho de professor, cientista e investigador onde deixou uma proposta política de valorização das pessoas e do ser humano. Proponho uma iniciativa de participação e solidariedade nesta escola única, que entende e compreende o pensamento de Milton Santos contra o pensamento hegemônico de autores exclusivos. CONTRIBUA e participe do resgate ao laboratório de geomorfologia e Estudos Regionais.

A Escola Municipal Professor Milton Santos, situada no Jardim Terra Nova, Villages Inema, Maré, ltaparica, s/n° - Valéria, Salvador, Bahia, mantém os cursos de Educação Infantil (Pré-Escolar) e Ensino Fundamental, sendo mantida pelo Poder Público Municipal e criada no ato n° 078/2002 - Diário Oficial do Município de 18/03/2002 e Alteração da denominação de Escola Municipal de Valeria para Escola Municipal Professor Milton Santos, conforme Portaria número 183/2003- Diário Oficial do Município de 17 a 22/04/2003.

O nome do patrono Professor Milton Santos, foi colocado para homenageá-lo, por se tratar de um estudioso geógrafo baiano de projeção internacional, autor consagrado de dezenas de livros, estudioso e critico do fenômeno da globalização, que exerceu com autonomia e grandeza o oficio intelectual.

"Jornalista, advogado, geógrafo, Milton Santos nasceu em Rio de Contas, em 1928. Baiano de projeção internacional, foi ganhador do Voutrin Lud, equivalente ao Nobel de Geografia. Doutor Honoris Causa da UFBA, revolucionou o ensino da Geografia a partir do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, montado na época do Reitor Edgar Santos, em 1959. Autor consagrado de dezenas de livros, estudioso e critico do fenômeno da globalização, exerceu com autonomia e grandeza o ofício Intelectual. Milton Santos morreu em 21 de junho de 2001, na cidade de São Paulo. "

A Escola Municipal Professor Milton Santos foi inaugurada no dia 28 de abril de 2003, passando a funcionar em dois turnos de trabalho – o matutino e o vespertino. Suas instalações contavam com: oito salas de aula, uma secretaria, um refeitório, uma cantina, uma biblioteca, um laboratório de informática, uma diretoria, uma sala de professores e quatro banheiros.

Já em sua inauguração foi constatado que a nossa Escola não atenderia a demanda do bairro de Valeria, o que começou a gerar movimentos constantes de busca por matriculas, apesar da lotação já estar esgotada. Apesar desse fato, notamos que alguns alunos matriculados Rio freqüentavam as aulas regularmente, motivados em sua maioria pelo retorno dos pais as cidades de origem ou, pela falta de recursos para se destocarem ate a escola devido a distância de suas moradias.

Na sua fundação, a escola teve como diretor nomeado pro-têmpore, O professor Leonildo Costa Caldas, pioneiro nos trabalhos realizados por esta escola, vindo a ser reafirmado na posição de diretor na primeira eleição para a escolha da equipe de gestão, realizada ainda no ano de 2003. O processo eletivo deu-se por meio do voto direto e contou com a participação do corpo docente, funcionários e pais de alunos, deixando de ter representante do corpo discente, em razão da pouca idade de nossos alunos. A chapa única liderada pelo professor Leonildo Costa Caldas não teve candidato a vice-direção por falta de professor habilitado (concursado e com mais de seis meses na unidade escolar), obteve o total de votos necessários para ser eleita, dando continuidade a gestão. A partir de fevereiro de 2004, passou a assumir a vice-direção turno vespertino a professora Marlene Maria Joazeiro de Souza nomeada pró-têmpore, por indicação do gestor da Unidade.

Atualmente a Unidade Escolar é dirigida pela Professora Ana Lúcia Caribé, que assumiu a direção da escola em janeiro de 2006, tendo como vice-diretoras as Professoras Niraildes e - do turno matutino, e Eliete Caribé - do turno vespertino. A escola atualmente conta também com algumas turmas do ProJovem, programa do Governo Federal que conta com auxílio do município de Salvador.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Segundo Editorial O Negro no Brasil Atual (1980)

Em atenção, a grande participação neste blog http://onegronobrasil1980.blogspot.com são eleitores. Encaminhamos com sugestão ao país, para uma gestão e realização de um seminário sobre a obra de Milton Santos.

MILTON SANTOS

Propugna-se por alçar a bandeira que o ilustre brasileiro Milton Santos, geógrafo de mão cheia, desfraldou; a de ver reunidos num conclave só, a debater-se excelência e qualidade num mundo em que a globalização centrada em interesses alienígenas minoritários (países controladores do capital planetário conhecidos como G-8), solaparam a perspectiva idealizada pelo magno cientista, de globalização produtiva com inclusão igualitária.
Nessa temática geopolítica e geofísica, inserida profundamente no contexto geomorfológico, está a demandar novos cérebros a obviar transcendência paradigmática, onde a suficiência humana acode perene como novo degrau à efeméride de hum mil novecentos e setenta e nove, manifestada em "Carta de Uberaba". Manifestação pujante e autônoma a eclodir sempre de novo, qual 'Fenix' renascida sob égide do "Encontro de Ribeirão Preto", reverberando no Senado Federal, com pronunciamento valoroso de eminentes representantes da qualidade nacional.
Destarte, dada a magnitude da obra aludida, convém convidar a própria Organização das Nações Unidas - ONU -, a interagir na gestão da gênese preconizada pelo notável ganhador do prêmio ABMES. Acresça-se concomitantemente invocar a Universidade Federal da Bahia a pronunciar-se e investir-se das honras, sob as conseqüências oriundas das tratativas, de um tão memorável filho.
Aprouve ao Brasil, ser o Senado Federal e todo o Congresso Nacional o berço do seminários de estudos e pesquisas, pois com toda razão chama-se Parlamento, exercício do verbo, o lar da linguagem fluída, o próprio momento 'local onde se parla ou fala'. E nada mais retumbante que deitar considerações, sobre tão impoluto brasileiro, filho da Bahia e famoso mundialmente.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Editorial do ''O Negro no Brasil Atual (1980)''. João 15:1 “EU SOU a Videira Verdadeira e o Meu PAI é o Lavrador”.

Diz o SACRO ARAUTO, Porta-Voz da ONICIÊNCIA, Ser e Estar concomitante, Árvore da Vida (que é Árvore da Obediência); que em sendo como árvore tem por provedor O CRIADOR e Lavrador ETERNO a supri-LHE a Vida, a regar-LHE os meios, a dar por excelência todas as provisões pertinentes com o fito de, assegurar ao Filho a pré-eminência. Infere-se assim do arrazoado que o provimento deva ser adequado e que o lavrado seja excelente, posto que o titular seja “O Melhor” e a Semente Perfeita.

Faz-se mister reportar ao que o eminente Milton Santos propôs nas viagens a Uberaba para com o então prefeito Wagner do Nascimento, resultando no documento aludido, reconhecido como ‘Carta de Uberaba’ que provoca uma investigação acadêmica, mobilizando os setores da inteligência brasileira e de toda raça humana, à imponência das potências subjacentes inerentes a riqueza nacional, cujo manancial longe está de revelar-se em sua pujança plena. É imperativo numa ‘”sociedade multiracial”, ética e culturalmente falando’ disse o senador Itamar Franco, seja fecunda em promanar frutos sazonados de tão promissora sementeira.

O Evento de Uberaba teve por coroamento instigar o Senado Brasileiro a pronunciar-se através de seus eminentes delegados, em que citando também o sociólogo Gilberto Freire reporta ao fato inconteste de que “o senhor branco já não pode permitir a marginalização daqueles que outrora guardava na casa grande e senzala”. Em meio a esse cadinho que funde povos e emerge a grandeza do povo brasileiro, temos “a terra perfeita” nesse meio social. Para que possamos lançar as divinas sementes, das culturas de origem, que povoaram as Américas, fazendo surgir uma nova e melhor civilização, com democracia a respeitar o ‘livre-arbítrio’ seguindo o exemplo do Mestre dos Mestres em, ser e estar verdadeira árvore a ser lavrada pelo Eterno nesse frutífero solo do BRASIL.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

VIRTUDE É SABERES DA EDUCAÇÃO E INFORMAÇÃO

Educação no Brasil viabiliza-se com a plena expressão da LIBERDADE, mormente no que concerne ao conhecimento teórico e técnicas procedimentais mais simples e de alcance máximo. Em sua maioria fática de evidência conceituada, assistimos a uma universalização do conhecimento verticalizado e de custosa operação, tornando sua possibilidade apenas a grupos hegemônicos e/ou de grande poder econômico, excluindo tacitamente a esmagadora maioria da população, não somente do Brasil, mas do mundo todo, para depauperação dos países menos aquinhoados com as benesses naturais e humanas. Consoante afirmou excelentíssimo presidente Luiz Inácio (LULA) não com cadeias e grilhões que se educa, quando muito se amestra, a educação preceituada 'vem do interior para o exterior' e grassa minando aqui e alhures, pontuando benesses nas famílias, nas comunidades, nas cidades, e países fazendo a riqueza da Nação e porque não dizer, da humanidade.

E como obviar essa aquisição que prima pela excelência do indivíduo, enquanto maximiza o coletivo? Com a total Liberdade de ensinar, ampliando o leque de oportunidades, tornando massificada a possibilidade de aprender e apreender com qualquer indivíduo, professor ou voluntários da sabedoria universal. Todo e qualquer cerceamento do imperativo educacional, seja por imposição de títulos legalizados, ou exigências burocráticas, mesmo outras quaisquer que não o livre arbítrio pessoal, vem onerando a humanidade com freios criminosos ao desenvolvimento máximo permitido.

Propugnamos por liberdade ao ponto de que, qualquer que já saiba possa ensinar o que sabe por menor que seja, - visto o elemento do segundo ano já poder ensinar ao seu irmão do primeiro - e constitui assim reserva de qualidade potencial, por enquanto apenas teórica, subvertendo a visão da Carta de Uberaba que visava 'a ocupação do espaço vazio que a Nação dispõe, ' naquele momento focando apenas o geográfico e aqui expandimos para o vazio educacional. À vista do que aconteceu com o solo e subsolo de formas incorretas aproveitadas - veja-se a ocupação amazônica como triste modelo -, apresentamos a possibilidade de 'melhor' qualificar o homem face ao custo/benefício e seu resultado, para bem se haver no contexto social aproveitando essa riqueza humana a gerar riqueza das terras brasileiras tanto solo, subsolo ou mesmo do piso intelectual da população em geral, consolidando-se em cultura popular, em seu aproveitamento polivalente.

É a resposta adequada à elite que capitulou pelo conforto que é simpático, graças as facilidades inerentes à preeminência cultural em que goza de relativa estabilidade social, basta-nos agigantar as disponibilidades de conhecimento reconhecendo em cada voluntário do saber, um depósito real de realidades disponíveis acessível aos comuns.

Eduardo Antônio da Silva Paranhos Néris.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Forma Sistêmica de governar

Os governos brasileiros não tiveram uma visão sistêmica de programa de governo, é uma cultura atávica da política brasileira. O Brasil poderá ser uma grande nação. Milton Santos afirmou em entrevista ao Roda Viva, que os intelectuais não só no Brasil, mas de modo geral , capitularam pelo conforto. O principio da universidade é preparar e dotar seus habitantes de informação e conhecimento de tal modo a ter compreensão de uma forma sistêmica de convivência entre estado e nação. Na composição das organizações que compõem o estado, como partidos políticos e outros, no exercício das idéias, na interação do processo da brasilidade, há um grande desencontro em fazer uma grande nação. Isso deve ser um agir de todos, buscando de forma dinâmica no potencial que está em todos os brasileiros.

Waldimiro de Souza

domingo, 18 de novembro de 2007

A globalização atual não é irreversível (Milton Santos)

A globalização atual é muito menos um produto das idéias atualmente possíveis e, muito mais, o resultado de uma ideologia restritiva adrede estabelecida. Todas as realizações atuais, oriundas de ações hegemônicas, têm como base construções intelectuais fabricadas antes mesmo da fabricação das coisas e das decisões de agir. A intelectualização da vida social, recentemente alcançada, vem acompanhada de uma forte ideologização.

A dissolução das ideologias

Todavia, o que agora estamos assistindo em toda parte é uma tendência à dissolução dessas ideologias, no confronto com a experiência vivida dos povos e dos indivíduos, O próprio credo financeiro, visto pelas lentes do sistema econômico a que deu origem, ou examinado isoladamente, em cada país, aparece menos aceitável e, a partir de sua contestação, outros elementos da ideologia do pensamento único perdem força.

Além das múltiplas formas com que, no período histórico atual, o discurso da globalização serve de alicerce às ações hegemônicas dos Estados, das empresas e das instituições internacionais, o papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico dos objetos que nos rodeiam contribuem,juntos, para agravar essa sensação de que agora não há outro futuro senão aquele que nos virá como um presente ampliado e não como outra coisa. Daí a pesada onda de conformismo e inação que caracteriza nosso tempo, contaminando os jovens e, até mesmo, uma densa camada de intelectuais.

É muito difundida a idéia segundo a qual o processo e a forma atuais da globalização seriam irreversíveis. Isso também tem a ver com a força com a qual o fenômeno se revela e instala em todos os lugares e em todas as esferas da vida, levando a pensar que não há alternativas para o presente estado de coisas.

No entanto, essa visão repetitiva do mundo confunde o que já foi realizado com as perspectivas de realização. Para exorcizar esse risco, devemos considerar que o mundo é formado não apenas pelo que já existe (aqui, ali, em toda parte), mas pelo que pode efetivamente existir (aqui, ali, em toda parte). O mundo datado de hoje deve ser enxergado como o que na verdade ele nos traz, isto é, um conjunto presente de possibilidades reais, concretas, todas factíveis sob determinadas condições.

O mundo definido pela literatura oficial do pensamento único é, somente, o conjunto de formas particulares de realização de apenas certo número dessas possibilidades. No entanto, um mundo verdadeiro se definirá a partir da lista completa de possibilidades presentes em certa data e que incluem não só o que já existe sobre a face da Terra, como também o que ainda não existe, mas é empiricamente factível. Tais possibilidades, ainda não realizadas,já estão presentes como tendência ou como promessa de realização. Por isso, situações como a que agora defrontamos parecem definitivas, mas não são verdades eternas.

A pertinência da utopia

É somente a partir dessa constatação, fundada na história real do nosso tempo, que se torna possível retomar, de maneira concreta, a idéia de utopia e de projeto. Este será o resultado da conjunção de dois tipos de valores. De um lado, estão os valores fundamentais, essenciais, fundadores do homem, válidos em qualquer tempo e lugar, como a liberdade, a dignidade, a felicidade; de outro lado, surgem os valores contingentes, devidos à história do presente, isto é, à história atual. A densidade e a factibilidade histórica do projeto, hoje, dependem da maneira como empreendamos sua combinação.

Por isso, é lícito dizer que o futuro são muitos; e resultarão de arranjos diferentes, segundo nosso grau de consciência, entre o reino das possibilidades e o reino da vontade. É assim que iniciativas serão articuladas e obstáculos serão superados, permitindo contrariar a força das estruturas dominantes, sejam elas presentes ou herdadas. A identificação das etapas e os ajustamentos a empreender durante o caminho dependerão da necessária clareza do projeto.

Conforme já mencionamos, alguns dados do presente nos abrem, desde já, a perspectiva de um futuro diferente, entre outros: a tendência à mistura generalizada entre povos; a vocação para uma urbanização concentrada; o peso da ideologia nas construções históricas atuais; o empobrecimento relativo e absoluto das populações e a perda de qualidade de vida das classes médias; o grau de relativa “docilidade” das técnicas contemporâneas; a “politização generalizada” permitida pelo excesso de normas (Maria Laura Silveira, Um país, uma região. Fim de século e modernidades na Argentina, 1999); e a realização possível do homem com a grande mutação que desponta.

Lembramos, também, que um dos elementos, ao mesmo tempo ideológico e empiricamente existencial, da presente forma de globalização é a centralidade do consumo, com a qual muito têm a ver a vida de todos os dias e suas repercussões sobre a produção, as formas presentes de existência e as perspectivas das pessoas. Mas as atuais relações instáveis de trabalho, a expansão de desemprego e a baixa do salário médio constituem um contraste em relação à multiplicação dos objetos e serviços, cuja acessibilidade se torna, desse modo, improvável, ao mesmo tempo que até os consumos tradicionais acabam sendo difíceis ou impossíveis para uma parcela importante da população. É como se o feitiço virasse contra o feiticeiro.

Essa recriação da necessidade, dentro de um mundo de coisas e serviços abundantes, atinge cada vez mais as classes médias, cuja definição, agora, se renova, à medida que, como também já vimos, passam a conhecer a experiência da escassez. Esse é um dado relevante para compreender a mudança na visibilidade da história que se está processando. De tal modo, às visões oferecidas pela propaganda ostensiva ou pela ideologia contida nos objetos e nos discursos opõem-se as visões propiciadas pela existência. É por meio desse conjunto de movimentos, que se reconhece uma saturação dos símbolos pré-construídos e que os limites da tolerância às ideologias são ultrapassados, o que permite a ampliação do campo da consciência.

Nas condições atuais, essa evolução pode parecer impossível, em vista de que as soluções até agora propostas ainda são prisioneiras daquela visão segundo a qual o único dinamismo possível é o da grande economia, com base nos reclamos do sistema financeiro. Por exemplo, os esforços para restabelecer o emprego dirigem-se, sobretudo, quando não exclusivamente, ao circuito superior da economia. Mas esse não é o único caminho e outros remédios podem ser buscados, segundo a orientação político-ideológica dos responsáveis, levando em conta uma divisão do trabalho vinda “de baixo”, fenômeno típico dos países subdesenvolvidos (M. Santos, O espaço dividido, 1978), mas que agora também se verifica no mundo chamado desenvolvido.

Por outro lado, na medida em que as técnicas cada vez mais se dão como normas e a vida se desenrola no interior de um oceano de técnicas, acabamos por viver uma politização generalizada. A rapidez dos processos conduz a uma rapidez nas mudanças e, por conseguinte, aprofunda a necessidade de produção de novos entes organizadores. Isso se dá nos diversos níveis da vida social. Nada de relevante é feito sem normas. Neste fim do século XX, tudo é política. E, graças às técnicas utilizadas no período contemporâneo e ao papel centralizador dos agentes hegemônicos, que são planetários, torna-se ubíqua a presença de processos distorcidos e exigentes de reordenamento. Por isso a política aparece como um dado indispensável e onipresente, abrangendo praticamente a totalidade das ações.

Assistimos, assim, ao império das normas, mas também ao conflito entre elas, incluindo o papel cada vez mais dominante das normas privadas na produção da esfera pública. Não é raro que as regras estabelecidas pelas empresas afetem mais que as regras criadas pelo Estado. Tudo isso atinge e desnorteia os indivíduos, produzindo uma atmosfera de insegurança e até mesmo de medo, mas levando os que não sucumbem inteiramente ao seu império à busca da consciência quanto ao destino do Planeta e, logo, do Homem.

Outros usos possíveis para as técnicas atuais

Os sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hegemônicos estão sendo utilizados para reduzir o escopo da vida humana sobre o planeta. No entanto, jamais houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos homens. A materialidade que o mundo da globalização está recriando permite um uso radicalmente diferente daquele que era o da base material da industrialização e do imperialismo.

A técnica das máquinas exigia investimentos maciços, seguindo-se a massividade e a concentração dos capitais e do próprio sistema técnico. Daí a inflexibilidade física e moral das operações, levando a um uso limitado, direcionado, da inteligência e da criatividade. Já o computador, símbolo das técnicas da informação, reclama capitais fixos relativamente pequenos, enquanto seu uso é mais exigente de inteligência. O investimento necessário pode ser fragmentado e torna-se possível sua adaptação aos mais diversos meios. Pode-se até falar da emergência de um artesanato de novo tipo, servido por velozes instrumentos de produção e de distribuição.

Dir-se-á, então, que o computador reduz – tendencialmente - o efeito da pretensa lei segundo a qual a inovação técnica conduz paralelamente a uma concentração econômica. Os novos instrumentos, pela sua própria natureza, abrem possibilidades para sua disseminação no corpo social, superando as clivagens sócio-eonômicas preexistentes.

Sob condições políticas favoráveis, a materialidade simbolizada pelo computador é capaz não só de assegurar a liberação da inventividade como torná-la efetiva. A desnecessidade, nas sociedades complexas e sócio-economicamente desiguais, de adotar universalmente computadores de última geração afastará, também, o risco de que distorções e desequilíbrios sejam agravados. E a idéia de distância cultural, subjacente à teoria e à prática do imperialismo, atinge, também, seu limite. As técnicas contemporâneas são mais fáceis de inventar, imitar ou reproduzir que os modos de fazer que as precederam.

As famílias de técnicas emergentes com o fim do século XX - combinando informática e eletrônica, sobretudo - oferecem a possibilidade de superação do imperativo da tecnologia hegemônica e paralelamente admitem a proliferação de novos arranjos, com a retomada da criatividade. Isso, aliás, já está se dando nas áreas da sociedade em que a divisão do trabalho se produz de baixo para cima. Aqui, a produção do novo e o uso e a difusão do novo deixam de ser monopolizados por um capital cada vez mais concentrado para pertencer ao domínio do maior número, possibilitando afinal a emergência de um verdadeiro mundo da inteligência. Desse modo, a técnica pode voltar a ser o resultado do encontro do engenho humano com um pedaço determinado da natureza - cada vez mais modificada -, permitindo que essa relação seja fundada nas virtualidades do entorno geográfico e social, de modo a assegurar a restauração do homem em sua essência.

Geografia e aceleração da história

A própria geografia parece contribuir para que a história se acelere. Na cidade - sobretudo na grande cidade -, os efeitos de vizinhança parecem impor uma possibilidade maior de identificação das situações, graças, também, à melhoria da informação disponível e ao aprofundamento das possibilidades de comunicação. Dessa maneira, torna-se possível a identificação, na vida material como na ordem intelectual, do desamparo a que as populações são relegadas, levando, paralelamente, a um maior reconhecimento da condição de escassez e a novas possibilidades de ampliação da consciência.

A partir desses efeitos de vizinhança, o indivíduo refortificado pode, num segundo momento, ultrapassar sua busca pelo consumo e entregar-se à busca da cidadania. A primeira supõe uma visão limitada e unidirecionada, enquanto a segunda inclui a elaboração de visões abrangentes e sistêmicas. No primeiro caso, o que é perseguido é a reconstrução das condições materiais e jurídicas que permitem fortalecer o bem-estar individual (ou familiar) sem, todavia, mostrar preocupação com o fortalecimento da individualidade, enquanto a busca da cidadania apontará para a reforma das práticas e das instituições políticas.

Frente a essa nova realidade, as aglomerações populacionais serão valorizadas como o lugar da densidade humana e, por isso, o lugar de uma coabitação dinâmica. Será também aí, visto pela mesma ótica, que se observarão a renascença e o peso da cultura popular. Por outro lado, a precariedade e a pobreza, isto é, a impossibilidade, pela carência de recursos, de participar plenamente das ofertas materiais da modernidade, poderão, igualmente, inspirar soluções que conduzam ao desejado e hoje possível renascimento da técnica, isto é, o uso consciente e imaginativo, em cada lugar, de todo tipo de oferta tecnológica e de toda modalidade de trabalho. Para isso contribuirá o fato histórico concreto que é, ao contrário do período histórico anterior, o grau de “docilidade” das técnicas contemporâneas, que se apresentam mais propícias à liberação do esforço, ao exercício da inventividade e à floração e multiplicação das demandas sociais e individuais.

Se a realização da história, a partir dos vetores “de cima”, é ainda dominante, a realização de uma outra história a partir dos vetores “de baixo” é tomada possível. E para isso contribuirão, em todos os países, a mistura de povos, raças, culturas, religiões, gostos etc. A aglomeração das pessoas em espaços reduzidos, com o fenômeno de urbanização concentrada, típico do último quartel do século XX, e as próprias mutações nas relações de trabalho, junto ao desemprego crescente e à depressão dos salários, mostram aspectos que poderão se mostrar positivos em futuro próximo, quando as metamorfoses do trabalho informal serão vividas também como expansão do trabalho livre, assegurando a seus portadores novas possibilidades de interpretação do mundo, do lugar e da respectiva posição de cada um, no mundo e no lugar.

As condições atuais permitem igualmente antever uma reconversão da mídia sob a pressão das situações locais (produção, consumo, cultura). A mídia trabalha com o que ela própria transforma em objeto de mercado, isto é, as pessoas. Como em nenhum lugar as comunidades são formadas por pessoas homogêneas, a mídia deve levar isso em conta. Nesse caso, deixará de representar o senso comum imposto pelo pensamento único. Desde que os processos econômicos, sociais e políticos produzidos de baixo para cima possam desenvolver-se eficazmente, uma informação veraz poderá dar-se dentro da maioria da população e ao serviço de uma comunicação imaginosa e emocionada, atribuindo-se, assim, um papel diametralmente oposto ao que lhe é hoje conferido no sistema da mídia.

Um novo mundo possível

A partir dessas metamorfoses, pode-se pensar na produção local de um entendimento progressivo do mundo e do lugar, com a produção indígena de imagens, discursos, filosofias,junto à elaboração de um novo ethos e de novas ideologias e novas crenças políticas, amparadas na ressurreição da idéia e da prática da solidariedade.

O mundo de hoje também autoriza uma outra percepção da história por meio da contemplação da universalidade empírica constituída com a emergência das novas técnicas planetarizadas e as possibilidades abertas a seu uso. A dialética entre essa universalidade empírica e as particularidades encorajará a superação das práxis invertidas, até agora comandadas pela ideologia dominante, e a possibilidade de ultrapassar o reino da necessidade, abrindo lugar para a utopia e para a esperança. Nas condições históricas do presente, essa nova maneira de enxergar a globalização permitirá distinguir, na totalidade, aquilo que já é dado e existe como um fato consumado, e aquilo que é possível, mas ainda não realizado, vistos um e outro de forma unitária. Lembremo-nos da lição de A. Schmidt (The concept of nature in Marx, 1971) quando dizia que “a realidade é, além disso, tudo aquilo em que ainda não nos tornamos, ou seja, tudo aquilo que a nós mesmos nos projetamos como seres humanos, por intermédio dos mitos, das escolhas, das decisões e das lutas”.

A crise por que passa hoje o sistema, em diferentes países e continentes, põe à mostra não apenas a perversidade, mas também a fraqueza da respectiva construção. Isso, conforme vimos, já está levando ao descrédito dos discursos dominantes, mesmo que outro discurso, de crítica e de proposição, ainda não haja sido elaborado de modo sistêmico.

O processo de tomada de consciência não é homogêneo, nem segundo os lugares, nem segundo as classes sociais ou situações profissionais, nem quanto aos indivíduos. A velocidade com que cada pessoa se apropria da verdade contida na história é diferente, tanto quanto a profundidade e coerência dessa apropriação. A descoberta individual é,já, um considerável passo à frente, ainda que possa parecer ao seu portador um caminho penoso, à medida das resistências circundantes a esse novo modo de pensar. O passo seguinte é a obtenção de uma visão sistêmica, isto é, a possibilidade de enxergar as situações e as causas atuantes como conjuntos e de localizá-los como um todo, mostrando sua interdependência. A partir daí, a discussão silenciosa consigo mesmo e o debate mais ou menos público com os demais ganham uma nova clareza e densidade, permitindo enxergar as relações de causa e efeito como uma corrente Contínua, em que cada situação se inclui numa rede dinâmica, estruturada, à escala do mundo e à escala dos lugares.

É a partir dessa visão sistêmica que se encontram, interpenetram e completam as noções de mundo e de lugar, permitindo entender como cada lugar, mas também cada coisa, cada pessoa, cada relação dependem do mundo.

Tais raciocínios autorizam uma visão crítica da história na qual vivemos, o que inclui uma apreciação filosófica da nossa própria situação frente à comunidade, à nação, ao planeta, juntamente com uma nova apreciação de nosso próprio papel como pessoa. É desse modo que, até mesmo a partir da noção do que é ser um consumidor, poderemos alcançar a idéia de homem integral e de cidadão. Essa revalorização radical do indivíduo contribuirá para a renovação qualitativa da espécie humana, servindo de alicerce a uma nova civilização.

A reconstrução vertical do mundo, tal como a atual globalização perversa está realizando, pretende impor a todos os países normas comuns de existência e, se possível, ao mesmo tempo e rapidamente. Mas isto não é definitivo. A evolução que estamos entrevendo terá sua aceleração em momentos diferentes e em países diferentes, e será permitida pelo amadurecimento da crise.

Esse mundo novo anunciado não será uma construção de cima para baixo, como a que estamos hoje assistindo e deplorando, mas uma edificação cuja trajetória vai se dar de baixo para cima.

As condições acima enumeradas deverão permitir a implantação de um novo modelo econômico, social e político que, a partir de uma nova distribuição dos bens e serviços, conduza à realização de uma vida coletiva solidária e, passando da escala do lugar à escala do planeta, assegure uma reforma do mundo, por intermédio de outra maneira de realizar a globalização.

A história apenas começa

Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela apenas começa. Antes o que havia era uma história de lugares, regiões, países. As histórias podiam ser, no máximo, continentais, em função dos impérios que se estabeleceram a uma escala mais ampla. O que até então se chamava de história universal era a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes. Chegava-se a dizer de tal ou tal povo que ele era sem história...

A humanidade como um bloco revolucionário

O ecúmeno era formado de frações separadas ou escassamente relacionadas do planeta. Somente agora a humanidade pode identificar-se como um todo e reconhecer sua unidade, quando faz sua entrada na cena histórica como um bloco. É uma entrada revolucionária, graças à interdependência das economias, dos governos, dos lugares. O movimento do mundo revela uma só pulsação, ainda que as condições sejam diversas segundo continentes, países, lugares, valorizados pela sua forma de participação na produção dessa nova história.

Vivemos em um mundo complexo, marcado na ordem material pela multiplicação incessante do número de objetos e na ordem imaterial pela infinidade de relações que aos objetos nos unem. Nos últimos cinqüenta anos criaram-se mais coisas do que nos cinqüenta mil precedentes. Nosso mundo é complexo e confuso ao mesmo tempo, graças à força com a qual a ideologia penetra objetos e ações. Por isso mesmo, a era da globalização, mais do que qualquer outra antes dela, é exigente de uma interpretação sistêmica cuidadosa, de modo a permitir que cada coisa, natural ou artificial, seja redefinida em relação com o todo planetário. Essa totalidade-mundo se manifesta pela unidade das técnicas e das ações.

A grande sorte dos que desejam pensar a nossa época é a existência de uma técnica globalizada, direta ou indiretamente presente em todos os lugares, e de uma política planetariamente exercida, que une e norteia os objetos técnicos. Juntas, elas autorizam uma leitura, ao mesmo tempo geral e específica, filosófica e prática, de cada ponto da Terra.

Nesse emaranhado de técnicas dentro do qual estamos vivendo, o homem pouco a pouco descobre suas novas forças. Já que o meio ambiente é cada vez menos natural, o uso do entorno imediato pode ser menos aleatório. As coisas valem pela sua constituição, isto é, pelo que podem oferecer. Os gestos valem pela adequação às coisas a que se dirigem. Ampliam-se e diversificam-se as escolhas, desde que se possam combinar adequadamente técnica e política. Aumentam a previsibilidade e a eficácia das ações.

Um dado importante de nossa época é a coincidência entre a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza. A denominação de era da inteligência poderia ter fundamento neste fato concreto: os materiais hoje responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados e não mais matérias-primas naturais. Pensamos ousadamente as soluções mais fantasiosas e em seguida buscamos os instrumentos adequados à sua realização. Na era da ecologia triunfante, é o homem quem fabrica a natureza, ou lhe atribui valor e sentido, por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente imaginadas. Por isso, tudo o que existe constitui uma perspectiva de valor. Todos os lugares fazem parte da história. As pretensões e a cobiça povoam e valorizam territórios desertos.

A nova consciência de ser mundo

Graças aos progressos fulminantes da informação, o mundo fica mais perto de cada um, não importa onde esteja. O outro, isto é, o resto da humanidade, parece estar próximo. Criam-se, para todos, a certeza e, logo depois, a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual. O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo as grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas, que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada um se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro. As dialéticas da vida nos lugares, agora mais enriquecidas, são paralelamente o caldo de cultura necessário à proposição e ao exercício de uma nova política.

Funda-se, de fato, um novo mundo. Para sermos ainda mais precisos, o que, afinal, se cria é o mundo como realidade histórica unitária, ainda que ele seja extremamente diversificado. Ele é datado com uma data substantivamente única, graças aos traços comuns de sua constituição técnica e à existência de um único motor para as ações hegemônicas, representado pelo lucro à escala global. É isso, aliás, que, junto à informação generalizada, assegurará a cada lugar a comunhão universal com todos os outros.

Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória. Aqui, não se trata de estabelecer datas, nem de fixar momentos da folhinha, marcos num calendário. Como o relógio, a folhinha e o calendário são convencionais, repetitivos e historicamente vazios. O que conta mesmo é o tempo das possibilidades efetivamente criadas, o que, à sua época, cada geração encontra disponível, isso a que chamamos tempo empírico, cujas mudanças são marcadas pela irrupção de novos objetos, de novas ações e relações e de novas idéias.

A grande mutação contemporânea

Diante do que é o mundo atual, como disponibilidade e como possibilidade, acreditamos que as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. Na sua forma material, unicamente corpórea, as técnicas talvez sejam irreversíveis, porque aderem ao território e ao cotidiano. De um ponto de vista existencial, elas podem obter um outro uso e uma outra significação. A globalização atual não é irreversível.

Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana está, finalmente, começando. A mesma materialidade, atualmente utilizada para construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da construção de um mundo mais humano. Basta que se completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana.

A grande mutação tecnológica é dada com a emergência das técnicas da informação, as quais - ao contrário das técnicas das máquinas - são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesses dos grandes capitais. Mas, quando sua utilização for democratizada, essas técnicas doces estarão ao serviço do homem.

Muito falamos hoje nos progressos e nas promessas da engenharia genética, que conduziriam a uma mutação do homem biológico, algo que ainda é do domínio da história da ciência e da técnica. Pouco, no entanto, se fala das condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta.( O Professor, Cientista, Geógrafo prêmio Nobel de Geografia, 12 titulos de Honoris causa de diversas faculdades no mundo, moreu como titular da cadeira de filosofia e ciências Humanas da USP) Homenagem do dia da Conciência Negra 20.11.2007).

In: SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro. Record, 2000. pg.159-174