sexta-feira, 14 de março de 2008

Editorial do ''O Negro no Brasil Atual (1980)''. João 15:1 “EU SOU a Videira Verdadeira e o Meu PAI é o Lavrador”.

Diz o SACRO ARAUTO, Porta-Voz da ONICIÊNCIA, Ser e Estar concomitante, Árvore da Vida (que é Árvore da Obediência); que em sendo como árvore tem por provedor O CRIADOR e Lavrador ETERNO a supri-LHE a Vida, a regar-LHE os meios, a dar por excelência todas as provisões pertinentes com o fito de, assegurar ao Filho a pré-eminência. Infere-se assim do arrazoado que o provimento deva ser adequado e que o lavrado seja excelente, posto que o titular seja “O Melhor” e a Semente Perfeita.

Faz-se mister reportar ao que o eminente Milton Santos propôs nas viagens a Uberaba para com o então prefeito Wagner do Nascimento, resultando no documento aludido, reconhecido como ‘Carta de Uberaba’ que provoca uma investigação acadêmica, mobilizando os setores da inteligência brasileira e de toda raça humana, à imponência das potências subjacentes inerentes a riqueza nacional, cujo manancial longe está de revelar-se em sua pujança plena. É imperativo numa ‘”sociedade multiracial”, ética e culturalmente falando’ disse o senador Itamar Franco, seja fecunda em promanar frutos sazonados de tão promissora sementeira.

O Evento de Uberaba teve por coroamento instigar o Senado Brasileiro a pronunciar-se através de seus eminentes delegados, em que citando também o sociólogo Gilberto Freire reporta ao fato inconteste de que “o senhor branco já não pode permitir a marginalização daqueles que outrora guardava na casa grande e senzala”. Em meio a esse cadinho que funde povos e emerge a grandeza do povo brasileiro, temos “a terra perfeita” nesse meio social. Para que possamos lançar as divinas sementes, das culturas de origem, que povoaram as Américas, fazendo surgir uma nova e melhor civilização, com democracia a respeitar o ‘livre-arbítrio’ seguindo o exemplo do Mestre dos Mestres em, ser e estar verdadeira árvore a ser lavrada pelo Eterno nesse frutífero solo do BRASIL.

6 comentários:

  1. Brasil - Comunidades Quilombolas na semana da Consciência Negra
    Rogério Almeida**

    Adital -
    Na Amazônia existem infinitas amazônias, com seus redemoinhos de gentes, igarapés, rios, um mundo em recursos naturais, história de vida, morte, violações e pelejas. Muitas gentes existem na Amazônia, que por ignorância, desconhecimento ou puro preconceito permanecem marginais, sem reconhecimento dos direitos que lhes cabem, filtrados sob a lente do exótico aos olhos dos estrangeiros de cá e de lá. Ou tratados como meros ícones do atraso ante a dinâmica do capital, apenas para gastar palavra em voga.
    Na perspectiva de aprofundar o conhecimento na defesa de seus territórios, manifestações culturais e informações neles gerados, cerca de 50 remanescentes de escravos da região guajarina e vizinhança (Acará, Moju, Abaetetuba, Igarapé Mirim,Tailândia, Concórdia, Bujaru, Tomé Açu ) passaram o dia 16 de novembro numa oficina com ênfase sobre direitos das comunidades negras.

    A oficina integra o projeto Nova Cartografia Social da Amazônia. A reunião ocorreu no espaço Sagrada Família, cravado no município de Ananindeua, região metropolitana de Belém. O advogado Aton Fon Filho, ligado a Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, organização com sede em São Paulo foi o facilitador. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a UNAMAZ, Associação de Universidades da Amazônia, agência multilateral de cooperação organizaram o evento. A cartilha Quilombolas Direito ao Futuro, serviu de apoio no estudo sobre os aspectos legais que conformam os direitos quilombolas na Constituição, além de estudos sobre os tratados internacionais em que o Brasil é signatário.

    No mesmo dia, só que no Palácio dos Despachos do Governo, a governadora Ana Júlia Carepa assinava o termo de adesão ao Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade Racial, ladeada pela ministra Matilde Ribeiro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República e representantes de entidades do movimento negro.

    Territórios em disputa - O geógrafo, negro e baiano, Milton Santos ao analisar o totalitarismo do capital em escala planetária revela que a cada dia a sanha do mesmo tende a subjugar territórios e os recursos naturais neles existentes em qualquer canto. No debate sobre os direitos dos quilombolas no Pará a questão foi o centro do debate. Os depoimentos de quilombolas da região de Jambuaçu, que reúne 14 comunidades do município de Moju é a melhor expressão sobre o assunto. As obras de infra-estrutura e grandes projetos despontam como agentes contrários a garantia dos territórios das populações consideradas tradicionais na Amazônia.

    No caso particular de Jambuaçu que é um afluente do rio Moju, a refrega com grandes empresas data da década de 1980, com a implantação de grandes empresas, como a Capim Caulim, a Pará Pigmentos e a monocultura do dendê pela empresa Marborges. Nos anos mais recentes a tensão tem se desenvolvido com a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). O centro nervoso reside no mineroduto que transporta bauxita oriunda do município de Paragominas, matéria prima para a produção de alumina, que é usada para a produção de alumínio, e a ampliação da linha de energia.

    O mineroduto e o linhão alimentam as fábricas da CVRD no município de Barcarena. No caso do mineroduto a construção ocorreu entre os anos de 2000 a 2004, já o linhão de energia data de 2005. Estima-se em 15 km a área afetada e que 58 famílias perderam terras agricultáveis. A invasão da companhia foi realizada à revelia dos moradores. A matriz dessa modalidade de projeto tem sido a democratização das mazelas sociais e ambientais onde são instalados.

    Tensões no quilombo Os quilombolas informaram que por conta da poluição do rio pelas empresas que exploram caulim, houve redução do pescado e a água é imprópria para uso. No caso da CVRD o indicador foi a derrubada de 150 castanheiras produtivas. Os militantes das comunidades negras estimam em 674 famílias afetadas pelos empreendimentos da companhia. O ápice da tensão entre as partes foi registrado em janeiro de 2006 com a derrubada de uma torre de transmissão.

    Uma nova questão desponta como tensão no mundo do povo de Jambuaçu. Trata-se da relação entre os quilombolas e pesquisadores. Na reunião do dia 16, alguns representantes tornaram público o descontentamento sobre o resultado do curta-metragem Filhas de Jambuaçu. Militantes da comunidade informaram que deram depoimentos sem a devida informação que as mesmas seriam para a mineradora.

    O curta indicado para o concurso internacional sobre etnografia não foi apresentado à comunidade, que só veio a conhecer o resultado após mediação de um militante que acessou uma cópia do mesmo em Belém. Uma moradora da área declarou que todas as informações sobre as tensões entre a companhia e os quilombolas não são tratadas no filme. Os quilombolas informaram ainda que não autorizaram uso de seus depoimentos e imagens para o professor Silvio Figueiredo, autor do curta. A polêmica deve ganhar a justiça, prometem os quilombolas. O curta integra projeto do Museu Paraense Emilio Goeldi de Educação Patrimonial, com apoio financeiro da companhia.

    Aparando as arestas e outras tensões - Com mediação do Ministério Público Federal (MPF), vários órgãos estaduais e a CPT, a empresa encontra-se obrigada a garantir manutenção da Casa Família Rural (CFR), produção de estudo através da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) sobre as potencialidades produtivas do território quilombola, assistência para o funcionamento do posto de saúde e pagamento de dois salários mínimos por dois anos para as 58 famílias afetadas diretamente pelo linhão e garantia de outras obras de infra-estrutura. .

    Outras tensões entre grandes companhias e as comunidades quilombolas ocorrem a oeste do estado, com o projeto de exploração de bauxita da empresa estadunidense ALCOA, no município de Juruti. A voz dissonante no processo de licenciamento tem sido do promotor estadual Raimundo Moraes, que tem lançado luz sobre as omissões nos estudos de impacto ambiental.

    Na região do arquipélago do Marajó a situação de tensão ocorre com os fazendeiros que costumam impedir a circulação dos quilombolas através de cercas. Já no quilombo do Cacau, localizado no município de Colares, o impasse gira em torno da empresa Empasa, que explora palmito na região. Os moradores informam que desde 1999 o proprietário da empresa soube do reconhecimento da área como remanescente de quilombo ergueu cercas e contratou capataz.

    A titulação das terras é o grande desafio na caminhada de garantia dos direitos das comunidades. Avelino da Conceição Almeida, neto e filho de escravos, morador do Cacau declara que "não largo o lugar por nada. Aqui nasci e cresci, criei meus 17 filhos". É ele que informa a derrubada de pelo menos 450 árvores, entre elas samaúma, marupá atamã pela Empasa.

    Quilombos no Pará - Faz 12 anos que a comunidade quilombola de Boa Vista recebeu a titulação do seu território de 1.125 hectares localizado no município de Oriximiná, oeste do Pará, que concentra boa parte das 295 comunidades estimadas no Estado. Foi a primeira comunidade a ser reconhecida no Brasil. Conforme o boletim Terra de Quilombo da Comissão Pró-Índio de São Paulo, datado de outubro de 2007, no Brasil há 79 territórios reconhecidos num total de 929.317,6437 hectares, que aglutina 9 mil famílias.

    O Pará desponta em primeiro lugar com 34 titulações, seguido do Maranhão, com 22. 44 processos solicitando reconhecimento dos territórios tramitam no Instituo Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) do Pará até setembro de 2007. O processo costumar ser demorado por causa de um conjunto de exigências, como o estudo antropológico para verificar a legitimidade da reivindicação. O estado Pará mantém o projeto Raízes direcionado para as comunidades, onde não raro há confrontos entre as demandas da comunidade e os técnicos do governo.

    Na avaliação dos participantes da oficina do dia 16, o reconhecimento do território é apenas o primeiro asso no processo de efetivação dos seus direitos. Os quilombolas salientam para a necessidade de ação conjunta em inúmeras frentes para a efetivação dos direitos e a emancipação dos negros (as) no país.

    Um dos impasses pontuados é a lentidão do Estado. Conforme dados do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), o projeto Brasil Quilombola do governo federal até 13 de junho, havia aplicado apenas 6,39% do orçamento de 2007 para ações em favor dos moradores de comunidades remanescentes de quilombo do total de 202 milhões.


    * Mestre em Planejamento do Desenvolvimento Regional e colaborador do Fórum Carajás, do Ecodebate e do Ibase, entre outros. É autor do Ibase, entre outros. É autor do luvro Araguaia - Tocantins: fios de uma História camponesa.

    Agência de informação Frei Tito para a America Latina, 2001-2005.

    Caixa postal 131- Cep:60.001-970- Fortaleza - Ceará - Brasil

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  2. A pobreza é um veneno
    22 de Abril de 2008 às 14h 00m · Ricardo · Arquivado sob Geral

    Paul Krugman

    “A pobreza na primeira infância envenena o cérebro”. Esta foi a abertura de um artigo publicado no “Financial Times” do último sábado, sintetizando a pesquisa apresentada na semana passada na Associação Americana para o Avanço da Ciência.

    Conforme explicou o artigo, os neurocientistas descobriram que “muitas crianças criadas em famílias muito pobres e com baixo status social apresentam níveis de hormônios relacionados ao estresse prejudiciais à saúde, o que prejudica o desenvolvimento neural”. O efeito disso é um prejuízo para o desenvolvimento da linguagem e para a memória - e, portanto, para a habilidade de escapar da pobreza - pelo resto da vida da criança.

    Portanto agora nós temos mais uma razão, ainda mais convincente, para nos envergonharmos do fato de os Estados Unidos terem fracassado na luta contra a pobreza.

    Lindon Baines Johnson declarou a sua “Guerra contra a Pobreza” 44 anos atrás. Ao contrário do que diz a lenda cínica, houve de fato uma redução da pobreza nos anos seguintes, especialmente entre as crianças, cujo índice de pobreza caiu de 23% em 1963 para 14% em 1969.

    Mas a seguir o progresso empacou: os políticos norte-americanos inclinaram-se para a direita, a atenção deslocou-se do sofrimento dos pobres para os supostos abusos cometidos pelas rainhas do welfare (programa de bem-estar social) que dirigiam Cadillacs. Assim, a luta contra a pobreza foi em grande parte abandonada.

    Em 2006, 17,4% das crianças dos Estados Unidos viviam abaixo da linha da pobreza, um número substancialmente mais elevado que o de 1969. E até mesmo esta estatística provavelmente não reflete a verdadeira intensidade da miséria de muitas crianças.

    Viver em estado de pobreza, ou próximo a ele, sempre foi uma forma de exílio, uma maneira de ser amputado da parcela maior da sociedade. Mas a distância entre os pobres e o resto de nós é muito maior do que há 40 anos, porque a renda da maioria dos norte-americanos subiu em termos reais, enquanto a linha de pobreza oficial permaneceu estacionária. Ser pobre nos Estados Unidos de hoje, mais ainda do que no passado, significa ser um pária no seu próprio país. E é isso que, segundo nos dizem os neurocientistas, envenena o cérebro infantil.

    O fracasso norte-americano no que se refere a progressos na redução da pobreza, especialmente entre as crianças, deveria provocar bastante auto-análise. Infelizmente, em vez disso este fato muitas vezes parece provocar uma grande criatividade quando se trata de apresentar desculpas.

    Algumas dessas desculpas assumem a forma de afirmações de que os pobres norte-americanos não são de fato pobres - uma alegação que sempre me faz indagar se aqueles que a fazem assistiram a televisão durante o furacão Katrina, ou se sequer olharam à sua volta quando visitavam uma grande cidade norte-americana.

    Porém, as desculpas relativas à pobreza envolvem principalmente a afirmação de que os Estados Unidos são uma terra de oportunidade, um lugar no qual as pessoas podem começar pobres, trabalhar duro e tornarem-se ricas.

    Mas o fato é que histórias do estilo Horatio Alger são raras, enquanto aquelas de pessoas aprisionadas pela pobreza dos pais são bastante comuns. Segundo uma recente estimativa, filhos norte-americanos de pais que se encontram na parcela da população correspondente aos 25% mais pobres têm uma probabilidade de quase 50% de permanecer nesta faixa. Caso sejam negros esta probabilidade é de 67%.

    Isso não é motivo de surpresa. Ser criado na pobreza faz com que o indivíduo fique em desvantagem em todas as etapas.

    Eu cotejei estes novos estudos sobre o desenvolvimento do cérebro na primeira infância com um outro feito pelo Centro Nacional de Estatísticas de Educação, que acompanhou um grupo de estudantes que estavam na oitava série em 1988. De forma geral, o estudo revelou que nos Estados Unidos de hoje a classe social dos pais sobrepuja a capacidade dos filhos: os alunos que saíram-se bem em um teste padronizado, mas que vieram de famílias de baixa renda, apresentaram uma probabilidade ligeiramente menor de terminar a universidade do que aqueles que tiveram um fraco desempenho no teste, mas que eram filhos de pais ricos.

    Nada disso é inevitável.

    Os índices de pobreza são bem mais baixos na maior parte dos países europeus do que nos Estados Unidos, principalmente devido aos programas governamentais que ajudam os pobres e os desafortunados.

    E os governos que mostram disposição podem reduzir a pobreza. No Reino Unido, o governo trabalhista que assumiu o poder em 1997 fez da redução da pobreza uma prioridade - e apesar de algumas derrotas, o seu programa de subsídios de renda e de outros auxílios apresentou grandes resultados. A pobreza infantil, em particular, foi reduzida pela metade, segundo as estatísticas que mais correspondem à definição norte-americana.

    No momento é difícil imaginar algo comparável acontecendo neste país. Vale reconhecer o mérito tanto de Hillary Clinton quanto de Barack Obama por estarem propondo novas iniciativas contra a pobreza - e também o mérito de John Edwards, que os incitou a fazer isso. Mas as propostas dos dois são modestas em magnitude e estão longe de se constituírem no cerne de suas campanhas.

    Não os estou culpando por isso. Caso um progressista vença esta eleição, isso terá ocorrido porque o candidato aliviou a ansiedade da classe média, e não porque ajudou os pobres. E, por diversas razões, o sistema de saúde, e não a pobreza, deve ser a primeira prioridade de um governo democrata.

    Mas torçamos para que no fim das contas a nação retorne à tarefa que abandonou: a de acabar com a pobreza que ainda envenena a vida de tantos norte-americanos.

    Tradução: UOL

    The New York Times
    http://www.nytimes.com/

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    1 Comentário »

    1.
    Waldimiro de Souza disse,

    22 de Abril de 2008 @ 15h 44m

    Aqui no Brasil, temos uma nova proposta política para todo o continente americano, um gênio chamado Milton Santos, participa do Congresso “A Carta de Uberaba” e logo após no “Encontro de Ribeirão Preto” formula em nome de todos uma proposta que abala os alicerces da consciência e da inteligência em busca da sabedoria solvendo os grilhões da dignidade da vida, reconduzindo tanto o pobre como os sofredores sociais, por um desafio profícuo ao limiar da vitória.

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  3. Caro, vi seus comentários no Blog Vermelho, mas ele está travado, não tenho podido atualizá-lo. Qualquer coisa, blogvermelhodohiphop@gmail.com. abc

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  4. Um encontro
    São Paulo, 01 de setembro de 1996
    Gilberto Gil - Professor Milton, eu não preparei nenhum roteiro especial, até porque não me sinto capaz de especular sobre a sua área de conhecimento e trabalho, mas como tenho interesse em que seu pensamento, suas idéias estejam divulgadas no nosso site, eu ainda assim quis conversar consigo e saber algumas coisas. Gostaria primeiro que o senhor nos desse uma idéia da sua formação, o início, os primeiros tempos na Bahia, como intelectual e em sua disciplina universitária.

    Milton Santos - Eu estudei Direito e já estudante de direito ensinava geografia, que descobri ser realmente o meu grande interesse. Foi isso que me levou a fazer um doutorado em geografia na Universidade de Estrasburgo, na França, e daí por diante comecei uma carreira de pesquisa, na Bahia mas também em outros países, que me conduziu a diversas aventuras intelectuais que se ampliaram a partir de 1964, por razões conhecidas, quando eu tive que deixar o Brasil. Creio que minha carreira começa com estudos empíricos, isto é, tentar descrever simplesmente o que era a realidade territoral e social aqui e alí, na Bahia sobretudo, mas também no Brasil e fora do Brasil. Depois, passei a ter um interesse mais teórico, mais epistemológico. Isso coincide com a minha distância do Brasil, quando o objeto concreto de trabalho não estava presente, a possibilidade de informação reduzida. Há dois abrigos para os homens, um é a terra e o outro o infinito. Então eu me abriguei nessa área mais de pensar o mundo, de pensar os lugares, e tentar uma geografia mais abrangente, mais uma metageografia do que mesmo geografia.

    GG - Essa contextualização nova do interesse geográfico lhe ocorreu a partir de Estrasburgo, ou já da Bahia, ou possivelmente no professorado aqui no Brasil?

    MS - A Bahia é sempre o centro, mas eu creio que essa ruptura ocorre a partir do fim dos anos 70. Até os anos 70 eu estava na França. Não era minha terra mas era um pouco minha terra. Depois eu tive que trabalhar nos Estados Unidos, no Canadá, na Tanzânia, na América Latina. É uma forma de desagregação e a vontade de evitar a desagregação, essa retomada da unidade do homem, é que me jogou, no caminho da filosofia, junto à minha ignorância crescente do Brasil. Acho que foi sobretudo isso.

    GG - Nesse percurso, nesses lugares que o senhor mencionou, França, Estados Unidos, Tanzânia, Brasil, incluindo Bahia e São Paulo, o senhor esteve nesses lugares sempre na situação de aprendiz e mestre, professor e estudioso? Aonde o senhor esteve como professor, aonde o senhor esteve estudando?

    MS - Eu estive como estudante somente em Estrasburgo, nos anos 50. A partir de 64, na França, sempre como professor, que passou a ser a minha atividade central praticamente única.

    GG - Nesse conjunto pensando sempre e escrevendo, e também professor?

    MS - Ah sim, o tempo todo.

    GG - Quantos livros?

    MS - Creio que são uns 40. E uns 300 artigos científicos.

    GG - Eu gostaria que o senhor me falasse um pouco de um conceito, que eu sei que está nos seus livros, eu não o li, mas o senhor mencionou numa palestra que fez na Câmara de Vereadores de Salvador, onde eu era vereador alguns anos atrás, que é o conceito de fase popular da história. De onde o senhor tirou isso? Porque estaríamos, segundo o seu sentimento, seu conhecimento, numa Fase Popular da História, o que quer dizer isso com relação a outras fases que a história humana tenha vivido?

    MS - Eu creio que o homem ocidental se acostumou a pensar a história a partir de um processo, que é dito ás vezes revolucionário, mas que é linear, porque o homem ocidental pensa a história a partir da técnica, cujas grandes mudanças praticadas são sobretudo quantitativas, e só aparentemente qualitativas. É a quantidade de razão incluída nos objetos que permite ao homem o chamado progresso, uma outra visão do mundo, uma outra possibilidade de atacar a natureza e de, assim, produzir relações etc. Eu creio que nós estamos entrando em uma fase diferente, porque vai haver uma mudança qualitativa extremamente forte, onde tudo vai se submeter ao homem e não à técnica, ela própria comandada pela produção como tem sido até hoje. Bom, essa tese nova é de difícil aceitação, porque de um lado ela parece se chocar com a maneira de pensar que nos foi ensinada pelos europeus, diante dos quais nós temos tendência a ser muito reverentes, mas por outro lado essa nova tese resulta não apenas de uma vontade de esperança e de uma crença no futuro, mas de uma leitura diferente do fenômeno técnico, uma leitura mais filosófica do que pragmática. O fenômeno técnico é por definição também uma forma de produção da inteligência do homem...

    GG - É como uma extensão da mente.

    MS - Exato.

    GG - Dos corpos e das mentes. Mecanismos e pensamentos...

    MS - ...ligados á forma de viver que vai se modificando a partir das formas do fazer. Nesse sentido, creio que a urbanização e a urbanização acelerada, urbanização devastadora e, sobretudo no nosso país, a forma como as nossas cidades cresceram, assim como as africanas e também as asiáticas, são um estouro, criado a partir das novas tecnologias e cheio de consequências inesperadas. As novas tecnologias empurram o homem para as grandes cidades, porque o campo se moderniza ...

    GG - Ele próprio se torna praticamente uma extensão da cidade.

    MS - O campo se esvazia e, é a cidade que tem muitos e diversos empregos e o campo gravita em tôrno de uma ou algumas atividades, então ele expulsa as pessoas, que vêm então para a cidade. Vêm para a cidade para serem pobres. Alguns melhoram de vida, mas a grande massa permanece pobre, e este fenômeno de pobreza na cidade hoje esta também presente no hemisfério norte. Cada dia eu me convenço mais que os pobres são mais fortes do que nós da classe média e do que os ricos, porque os pobres é que tem a possibilidade de sentir e pensar. O nosso pensamento é enquadrado, primeiro pelo nosso interesse, mas também pela forma como nós instrumentalizamos tudo, até mesmo os nossos bairros, as nossas casas. Tudo isso é uma prisão para o pensamento. Ora e aí entra uma outra discussão filosófica, epistemológica: a necessidade que eu estou sentindo agora de recusar a epistemologia do iluminismo que nos ensinou a fraqueza dos pobres.

    GG - O chamado conforto burguês.

    MS - O grande conforto burguês, traz uma preguiça intelectual.

    GG - É a renúncia a isso, renúncia a atividade pulsante da mente e do corpo no sentido mais rigoroso.

    MS - Exato. E o conforto supõe pragmatismo, supõe um investimento cada vez maior em pragmatismo. Quem pensa o novo são os homens do povo e seus filósofos, que são os músicos, cantores, poetas, os grandes artistas e alguns intelectuais.

    GG - O bardo.

    MS - O bardo e alguns intelectuais, num mundo que está assassinando os intelectuais. É muito difícil ser intelectual hoje porque os intelectuais querem ser "establishment". Então eles perdem a possibilidade de interpretação do movimento, perdem a possibilidade de se casarem com o povo, e de se casarem com o futuro. Creio, porém, que apesar disso, apesar do peso da ciência, nós estamos nos encaminhando para uma outra era no mundo inteiro, em grande parte por causa das novas tecnologias. Um pequeno exemplo: não há nenhum milagre maior do que a forma como a cultura popular está tomando revanche sobre a cultura de massa. Há 20, 30 anos atrás, a gente se preocupava com a idéia de que a cultura de massa iria esmagar a cultura popular. Nada disso, estamos vendo...

    GG - a cultura popular se apropriando das ferramentas possíveis...

    MS - ...isso é objeto de uma entrevista sua que eu li recentemente.

    GG - Sim, de vez em quando eu toco nesse assunto, porque é um tipo de pensamento, tipo de reflexão que me ocorre, não com rigor que o senhor tem e com a persistência, a perseverança.

    MS - Eu sou pago para fazer isso. (risos)

    GG - Também me interessa, e sem dúvida aqui e alí eu menciono esses arroubos de sentimentos. E quais seriam as consequências básicas que o senhor antevê, para essa fase, essa apropriação?

    MS - Acho que vai haver uma grande mudança política, mas nós não temos noção dessa possibilidade, dessa enorme mudança política, por causa da violência da informação que é um traço característico do nosso tempo. A brutalidade com que a informação inventa mitos, impõe mitos e suprime o que a gente chamava antigamente de verdade, essa violência da informação e das finanças, criou uma certa idéia tão forte do mundo atual que a gente fica desanimado diante da possibilidade de um outro futuro. Mas se a gente se detem a pensar na maneira como o mundo está funcionando, na maneira como os pobres se apropriam da tecnologia... Os pobres e oprimidos estão fazendo, de uma maneira extraordinária, o uso das novas tecnologias, no seu trabalho e em seus assaltos, por exemplo, e estão encontrando e defendendo idéias aí pelo mundo afora e de que a gente fala pouco...

    GG - As várias formas de pirataria. (risos)

    MS - A cidade é o lugar ideal, porque é o lugar onde todo mundo se comunica. Em todo caso se comunica mais do que em outra parte. Esta presença dessas massas que se levantaram com uma força não conhecida em nenhuma outra fase da história, essa mobilidade, esse roçar cotidiano que constitui um debate diário dissimulado ou ostensivo ...

    GG - Uma caixa de fósforos ali onde se risca -- faíscas a qualquer momento! (risos)

    MS - E como manifestação que a gente não está ainda consciente... Mas eu creio que isso tudo vai ser canalizado, porque o horror não pode ser permanente, a barbárie que nós vivemos, o horror que nós vivemos não pode durar indefinidamente.

    GG - O senhor sente indícios desses encaminhamentos? A perspectiva futura esta colocada claramente como o senhor diz, e os indícios? O senhor diz: a informação ainda encobre tudo, ainda afasta a visão mais clara desse brotar, dê exemplos, dois ou três indícios.

    MS - Eu creio que um deles é a forma de solidariedade, muito numerosa entre os pobres, que nós não vemos porque a universidade se interessa pelo escândalo, que mesmo pelo fato. A universidade se tornou, também ela, subordinada à mídia e à moda, porque a carreira em grande parte é subalterna à moda. Como a universidade estimula o carrerismo, em vez de estimular a profundidade, a maior parte das pesquisas não é para as coisas desse gênero.

    GG - O que está vindo. Para tentar manter o que já está.

    MS - Ou diabolizar certas manifestações.

    GG - No sentindo de neutralizá-las, como emergência.

    MS - Eu creio também que há novas formas de produção econômica na cidade. Que 16 milhões de pessoas, em São Paulo, subsistem. Mas apenas se fala em estrupos, assaltos. Quero dizer que há uma produção econômica a partir da co-presença e da solidariedade entre os homens e há por outro lado formas de produção autônoma como creio que seja seu trabalho, como creio que sejam, em grande, esses 500 mil -- há 500 mil sujeitos que saem todo fim de semana de São Paulo! -- meio milhão de pessoas e que vão para bares e festinhas tudo isso são forma de organização econômica, produto da adaptação às novas condições. Quero dizer que tudo isso é um sub-produto da informação. A informação ela é controlada no topo, mas deixa escorregar outras formas que são aproveitadas pelo que se chama de periférico, mas que, na verdade, é a grande maioria da sociedade. O drama é que tudo isso vem com a morte da política, pois os partidos se recusam a ser políticos, e querem ser apenas eleitorais, mesmo os partidos de esquerda se recusam a discutir a sociedade a partir do que ela é.

    GG - E quando o senhor diz a morte da política, por consequêcia a morte do Estado, que está submetido ao jogo político. O Estado é administrado, nutrido, gerido, é processado pela política. São os políticos que se elegem aos cargos de governo, são os presidentes eleitos que nomeiam os ministros, os deputados que legislam em função do que é proposto pelo executivo etc.. Esse grande organismo chamado Estado que esteve historicamente incubido de arbitrar e mesmo de administrar muito da vida social, estabelecer os fluxos, abrir os canais as possibilidades de interação entre os vários conjuntos sociais, produzir a distribuição da riqueza, produzir os elementos que vão dar suporte a produção, ao fazer humano no sentido social moderno. Esse tal Estado evidentemente com a morte da política também...

    MS - Se enfraquece.

    GG - Se enfraquece, desaparece.

    MS - Passa a ser instrumento do mais forte com o neo-darwinismo social a que nós estamos assistindo agora. O processo atual de globalização agrava essa problemática. Essa globalização não vai durar. Primeiro, ela não é a única possível, segundo, não vai durar como está, porque como está é monstruosa, perversa. Não vai durar, porque não tem finalidade. Para que nós estamos globalizando, para aumentar a competividade? Para que serve isso? O mercado global, o que é isso? Quem já viu esse mercado global? É o cachorro correndo atrás do rabo. E há o que, quem trabalha com a técnica chama de disfunção da técnica. Todo o processo tecnológico produz suas disfunções e convida a um novo avanço, tanto na tecnologia como na organização. Então, no caso atual, está havendo todos os dias avanços na tecnologia. Na organização o que está havendo é o avanço do comando unificado porque se diminui o número de empresas e se fortalece o papel de organismos centrais, de finanças...

    GG - De políticas econômicas, de políticas de produção...

    MS - E como essas políticas são cada vez mais globais, por conseguinte cada vez mais verticais..

    GG - Portanto não são mais políticas.

    MS - Não são mais políticas e elas não estão se preocupando com quem vai ser objeto dela. E daí é uma das razões porque a gente acredita outra vez na coisa do tempo popular.

    GG - Eu gostaria que o senhor insistisse aí: porque a palavra popular?

    MS - Eu não quiz usar democrático porque é uma palavra que ...(risos)

    GG - Já foi e está apropriada, já foi desapropriada. (risos)

    MS - Popular porque, cada vez menos as coletividades são chamadas a ter a palavra. Não é possível! Porque a forma como a tecnologia é utilizada por grupos cada vez menos numerosos para buscar unicamente lucro ou mais valia, não tem finalidade. Qual a finalidade, de que uma grande empresa bancária quebre a outra? Hoje nós estamos no reino da "nonsense" total e global. As massas estão de alguma maneira contidas pela informação, elas também estão contidas pela produção abstrata das universidades. Não é que a gente não vá ver o povo, só que o pensamento não parte daí porque a nossa maneira de começar a pensar é inadequada. Acho que tudo depende de como começar a pensar. Mas voltando à questão, o fato é também que as classes médias no mundo inteiro começam a descobrir que não mandam nada. Isso pode ser importante.

    GG - Definitivamente proletarizadas nesse sentido político, ainda que não no econômico ( também já começam a estar), mas no político sem dúvida alguma.

    MS - Mesmo na Europa as classes médias estão perdendo poder...

    GG - Até porque na Europa, eu acho que o que se chama de povo é todo da classe média, basicamente.

    MS - Exatamente. Só que agora estão perdendo as vantagens sociais, perdendo o emprego.

    GG - Portanto estão se tornando povo no sentido simples.

    MS - Eu creio que essa cortina de fumaça extremamente densa que se estabeleceu pelo que estou chamando vilolência da informação, nesses últimos 30 anos, é que está chegando ao limite. Então há uma busca de outra coisa, uma busca que é confusa por enquanto. Eu acho o que a gente chama de povo tem uma enorme sensibilidade mas não pode ter o entendimento, porque o mundo é muito complexo.

    GG - Professor, uma questão no meio. O senhor não acha que esse processo todo do sistema, enfim, as relações corporação para corporação, a troca dos interesses fechados, a alienação absoluta do que seja o interesse coletivo, a morte da política, a morte do Estado, etc., antes do desembocar nesse oceano da novidade, popular, da criação, do fôlego, da ânsia, do desejo da sobrevivência popular, através da criação de uma novidade qualquer, de um novo Estado, das novas instituições, o que quer que seja, o senhor não acha que antes disso tudo esse velho sistema, o "ancien regime", não vai passar pela fase da hipertrofia final, a fase hipertrofiada do sistema, como uma coisa do tipo "governo mundial", por exemplo?

    MS - Há essa busca, e já está se dando, de alguma maneira, nas finanças.

    GG - Nas finanças já existe, sem dúvida alguma. No campo mesmo das organizações, com o crescimento e fortalecimento dessas organizações do tipo ONU, até de outras; fundação de congressos internacionais, Parlamento Europeu, primeiro as configurações regionais, planetárias-regionais desse processo, e depois uma configuração final, realmente global através de um governo mundial, com congressos onde corporações nacionais econômicas e políticas tenham representações, nações com senados e câmeras constituídos globalmente, internacionalmente para gerir questões do tipo ecologia, problemas nas reservas ecológicas, que são de interesse internacional, problemas do tipo tráfico de drogas, que são problemas que não podem ser solucionados parcialmente por nenhuma nação e nem mesmo por pequenos conjuntos de Estados. O que o senhor acha disso?

    MS - Na realidade, são duas tendências que vão terminar se chocando. De um lado esse governo das coisas que busca verticalizar tudo, como o Banco Internacional de Berna que disciplina o trabalho bancário no mundo inteiro, e, de outro lado, uma certa vontade de moralidade internacional que seria o apanágio do homem outra vez. A dificuldade é que nós ainda estamos confundindo direitos do Homem com direitos humanos. Os direitos humanos estão indo bem, agora quanto aos direitos do Homem ainda estamos muito atrasados.

    GG - Faça um pouco a distinção.

    MS - Os direitos humanos estão ligados à espetacularização do sofrimento de algumas pessoas, bem colocadas para produzir o espetáculo, e aí há uma mobilização espetacular mas que não resolve o caso de cada indivíduo.

    GG - Não chega lá.

    MS - Mas uma coisa da nossa área que estive pensando recentemente: o número de estádios de futebol que se criaram no mundo nos últimos anos, isso junta ao número de enormes clubes ...

    GG - Esses são o indícios nesse sentido contrário, no sentido da reação, como o organismo humano reage.

    MS - Nessas casas de diversão paulistas, cariocas, etc., onde eu infelizmente não vou mais, há quantas pessoas? São milhares.

    GG - Uma nova sinergia, uma massa crítica que está se formando. E nesse sentido, o paradoxo não se instala de novo de uma forma dramática para o sistema? Quanto mais verticalizado se torna o sistema mais horizontalidade ele promove potencialmente?

    MS - A horizontalidade, aí é um outro problema para a epistemologia, porque nos ensinaram, e, nós continuamos ensinando, que nós pensamos com o cogito - "eu penso, eu existo". Não é nada disso. A verticalidade exacerba essa idéia do pensamento calculante, racional.

    GG - O controle.

    MS - E a emoção? E é isso que eu acho que está voltando, o poder da emoção que se dá no horizontal, porque são os homens que se encontram, é o mundo das surpresas, e surpresa é sinônimo de futuro. O problema é que a codificação dessa situação é difícil.

    GG - Mas que havendo um vertical, o que seja, o que se manteve, ele vai ter que cair. (risos)

    MS - Acho que já começa a cair, mas se restaura...

    GG - Se restaura sempre na mesma altura ou ele vai perdendo? É como se essa mundialização gerida a partir desse sentido criptocrático dos pequenos grupos cada vez menores e cada vez mais poderosos, será que também eles não estão vivendo uma ilusão e que de fato o que está acontecendo seja o estender desse lençol horizontalizante da sociedade?

    MS - Acho que a questão crucial é o trabalho, porque é pelo trabalho que a gente vai chegar lá. Porque cada um de nós é dois, então nós somos o homem que tem que trabalhar para alimentar a família, pagar o aluguel, educar os meninos etc., e aí a gente se subordina ao comando de quem produz o emprego. Na medida em que o emprego deixa de existir, deixa de ser permanente, deixa de ser suficiente, e na medida em que eu começo a descobrir o mundo e vejo que as coisas se passam mais ou menos igualmente por toda parte,...

    GG - Cá embaixo.

    MS - Eu creio que algo está se gestando com a dificuldade, de um lado de uma quantificação, de entendimento codificado, porque contraria todas as teorias e práticas vigentes nesses séculos todos, que nós adoramos, e de outro a dificuldade de transcrever isso na política, que deixou de existir.

    GG - Como é que o sistema que trabalha para manter esses instrumentos de controle de verticalidade etc, etc. como é que ele vai sustentar o fato de que é ele próprio que provoca cada vez mais a aglutinação do pensamento oposto? Esse é o paradoxo moderno que me interessa profundamente, o sistema ele precisa de otimização, ele precisa cada vez mais de mercado, ele precisa cada vez mais de ampliações, ele precisa outorgar a massa, ao povo, a condição: seja a cidadania, seja renda, seja acessos a conhecimentos, tecnologias etc, etc, etc.. Como é que ele se sustenta então, se na verdade o que ele faz é alimentar o inimigo?

    MS - E há uma outra coisa que eu queria incluir na nossa conversa, é que pela primeira vez na história da modernidade o homem é o senhor da técnica, coisa que ele nunca foi, durante o tempo da chamada natureza que sempre foi hostil ao homem. O homem não mandava em nada pois as suas descobertas eram subordinadas as condições ambientais, hoje é que o homem começa a ser autônomo.

    GG - Criou suas segundas, terceiras, quartas naturezas. Próximas, intocáveis por eles.

    MS - Hoje, a "natureza" cada vez mais se retira, este desencantamento do mundo, que a globalização acelerou, criando cada vez mais diversidades baseadas no artificio de que as cidades são exemplo e permitindo uma fluidez fundada em pontos do planeta devidamente equipados e produzindo relações verticaisÉSó que paralelamente haveria de se descobrir como utilizar essa diversidade: os ecologistas falam de biodiversidade, e eu estou chamando a cidade grande de o lugar da sociodiversidade, quero dizer quanto mais sociodiversidade mais riqueza.

    GG - Sociodiversidade, vários microorganismos em interatividades.

    MS - Em profissões, em formas de trabalho.

    GG- Sociais, operacionais, técnicos, vivenciais etc..

    MS - O dia em que descobrirmos a fórmula de potencializar as relações, porque é isso que cria a riqueza. A grande riqueza hoje é gente, é o homem. A partir das novas tecnologias, esse poder do homem aumenta, só que atualmente, se privilegia sempre a tecnologia mais recente, que não é necessária para o bem estar da maior parte da população. Então o acesso fica cada vez mais limitado.

    GG - Vou dar um saltozinho, mas está nisso tudo -- e a reforma agrária? O senhor falava em algum momento na tendência para a reunião, muito ao contrário do que almeja a reforma, no sentido idílico de reforma agrária que é a divisão tranquila, equânime da terra etc, etc.. Como o senhor vê isso hoje?

    MS - Eu acho uma coisa muito difícil de falar no Brasil.

    GG - Porque o politicamente correto exige por um lado...

    MS - Mas uma análise digamos fria, não descomprometida, leva a pensar que a reforma agrária é uma herança romântica. Corresponde ao mundo que não existe mais, que no Brasil ainda se justifica porque tem muito analfabeto no campo.

    GG - Quando o senhor diz que ainda se justifica, significa que no Brasil ainda é possível pensar de alguma maneira na reforma agrária para alguns setores, num sentido parcial, numa escala menor, que dure o que possa durar?

    MS - Exato. Mas parte da esquerda, e entre meus colegas e meus alunos, alguns ficaram zangados, porque há toda uma forma de pensar obediente ao politicamente correto, á necessidade de slogans...

    GG - Então esse mito da reforma agrária, tal como ele vem sendo sustentado até aqui, não tem futuro.

    MS - Ele tem que ser revisto se a gente quer tratar a questão seriamente, porque o mundo de hoje é o mundo da circulação, não é o da produção. Antigamente a produção se servia da circulação, hoje é o contrário: é a circulação que decide da produção. Por conseguinte é pouco entregar terras. A fixação na terra é ilusória porque não resolve realmente o problema. Quem ainda encontra solução são as cooperativas, que já são uma tendência à conservação. A reforma agrária também é um fator de modernização, então ela vai acelerar uma série de outros processos modernizadores que levarão à sua desagregação também. O que é que, a médio prazo, nós queremos no país? Dar comida a todo mundo, dar emprego a todo mundo, melhorar o nível de vida das pessoas. Não é obrigatóriamente reforma agrária.

    GG - Com a fixação obrigatória da família àquele pedaço, e à determinadas tecnologias que devem permanecer por toda vida, e coisas desse tipo. Porque a pequena gleba, de uma certa forma, nesse sentido clássico, acaba levando a isso.

    MS - É um obstáculo à inserção no progresso técnico e mesmo no progresso organizacional.

    GG - Agora como se explica por exemplo o fenômeno dos sem-terra, o fenômeno ambulante, o fenômeno político nesse sentido. Essa circulação dos sem-terra, que aparecem dos vários lugares, que se multiplicam, que se organizam, que se submetem aqui e ali as manipulações de outros interesses; o que é esse fenômeno dos sem-terra?

    MS - Na realidade, eu não os estudei de perto.

    GG - Eu sei, mas a sua percepção à distância...

    MS - É uma forma dessa mobilidade atual dentro do mundo, favorecida por uma vontade política, legítima, porque eu creio que os sem-terra constituem uma boa coisa no Brasil, são os únicos que ainda podem protestar, os outros brasileiros tem dificuldades de protestar por causa da relação de emprego.

    GG - Patronal. (risos)

    MS - Eles são como se tivessem procuração do resto do país para protestar. Daí a simpatia. Vejo muita gente que não está de acordo com eles mas tem simpatia porque eles fazem por nós o trabalho de protesto. Mas eu não creio que a reforma agrária como colocada romanticamente, tenha muito futuro não, porque...

    GG - O objeto da questão que está por trás, a terra, o pedaço de terra que é o objeto da conquista, é uma coisa que também não tem futuro.

    MS - O que é curioso é que na Europa, o vigente no momento atual é a concentração das terras ou o convite a plantar menos, ou mesmo a não plantar. Mas os Estados, preocupados com a segurança nacional, estimulam a permanência de uma certa quantidade de produção. Cada país quer ter a sua produção nacional estratégica. No Brasil, onde essa idéia de nação esta sendo rapidamente assassinada pelo aparelho do Estado, donde aparece como extremamente contraditório, porque nós produzimos para vender e aceitamos tranquilamente comprar maciçamente também quando a ocasião se apresenta; então essa idéia de relação obrigatória, entre um dado homem, e um dado pedaço de terra me parece ter muito pouca esperança. Tudo desemboca nas cidades. Há cidades que são chamadas de inchadas, não sei até que ponto são realmente inchadas, não sei até que ponto há uma saturação real ou não, mas aparecem como um problema essas cidades. Depois os mais baixos salários hoje tendem a ser urbanos, não são rurais. De modo que o mito da cidade não aparece mais como aquele eldorado que era ...

    GG - Há 30, 50 anos atrás.

    MS - Há 50 anos atrás. A tendência da agricultura é rapidamente se mecanizar, se capitalizar. O campo aceita mais rapidamente o capital novo do que a cidade. O campo é mais receptivo, permeável ao grande capital, então rapidamente as famílias vão se estabelecer e vão descobrir que não tem muita chance. Exceto se se incluirem em um processo centralizador, como no caso dos frangos etc., onde o pequeno produtor está ali, mas é verticalmente obediente até nos processos, do cotidiano da produção.

    GG - Planejamento da cidade, da indústria do capital.

    MS - Do grande capital. Então manter essa ilusão da reforma agrária como solução me parece inadequada.

    GG - Eu tinha esse sentimento.

    MS - Pensando no atual mais do que no futuro. Pensar hoje centenas e milhares de pessoas.

    GG - Por isso que eu coloquei a questão do sem-terra. A terra e o sem-terra, mas os sem-terras são a circulação. Há uma certa demanda reprimida que precisa ser satisfeita. É preciso dar um pouco de reforma agrária.

    MS - E se tornou uma frase política, respeitada até pelas direitas.

    GG - Muito mais por eles do quem quer que seja. (risos)

    MS - Só a extrema direita é que ...

    GG - Rejeita.

    MS - Mas todo mundo quer a reforma agrária, então não há mal nenhum. Você divide a terra mas não tem que entregar daqui a pouco. O politicamente correto.

    GG - Professor, uma última coisa, dentro desse conjunto de variáveis; população, é um tema de recente popularidade com o tal Summit internacional que houve agora promovido pelos grandes organismos internacionais, essa coisa da explosão demográfica.

    MS - Não me assusta a explosão demográfica.

    GG - O senhor duvidava um pouco do inchaço da cidade.

    MS - Não me assusta. São Paulo cresceu enriquecendo todo mundo.

    GG - O senhor acha que o grande capital do futuro é gente?

    MS - Eu creio que é isso mesmo: gente.

    GG - A fase popular da história quer dizer também isso.

    MS - Mais gente. E haverá um processo de acomodação.

    GG - A taxa de crescimento brasileiro esta caindo.

    MS - Baixou muito.

    GG - É um dado da fase popular da história, tem que ter gente.

    MS - Tem que ter gente, é o que dá a possibilidade da efervescência.

    GG - Encher os estádios de futebol. (risos)

    MS - E também as casas de diversões. Quanto mais cheias, melhor.

    GG - Muito obrigado, professor.

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  5. A historia faz a historia. o continente americano da uma lição ao velho mundo que enicio o navio negreno que ligo africa e o continente americano. se encontra duas personalidades o cientista pesquisador professor geographo Milton Santos e a eleição do primero negro Barrack Obama dos estados unidos, a maior nação do mundo.issa e a providencia de Deus. Deus esiste!Creio firmimente que a obra de Milton Santos e seu pensamentoe a eleição de Obama juntos trabalharão em uma democracia do novo continente para humanidade. sou um brasileiro que estou estudando nos estados unidos. e o meu testemunho de um jove estudante
    Ian Faquini

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  6. Talita, estudante de direito no Uniceub- DF

    A virtude é saberes da educação e informação. Qual é o entendimento de virtude, saberes, educação, informação pela cultura humana?

    Jesus Cristo disse: "Seja feito conforme crestes. A tua fé te salvou." Será que é a fé?

    "O estudo laboratório de geoformologia e estudos regionais" de Milton Santos vê a vida na perspectiva geofísica, geopolítica e geofológica. Deixou tudo isso -esse projeto de 1959 como presente para, nós -os jovens, acadêmicos e cientistas- pesquisarmos.

    O blog continua nessa pesquisa.

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